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abril 01, 2018

mal criado, mal-criado ou malcriado?

Extrato do Facebook de Bruno de Carvalho:

Passando ao lado da guerra entre os presidentes do Sporting e do Braga, centremo-nos na grafia "mal criado". Certa ou errada?


Falando de educação (ou da falta dela!), devemos escrever malcriado!


Esta regra não é uma novidade do Novo Acordo Ortográfico, pois ele limita-se a dar uma nova redação à regra "antiga": Emprega-se o hífen nos compostos com os advérbios bem e mal, quando estes formam com o elemento que se lhes segue uma unidade sintagmática e semântica e tal elemento começa por vogal ou h. No entanto, o advérbio bem, ao contrário de mal, pode não se aglutinar com palavras começadas por consoante. Eis alguns exemplos das várias situações: bem-aventurado, bem-estar, bem-humorado; mal-afortunado, mal-estar, mal-humorado; bem-criado (cf. malcriado)
Regra: 
Situações em que há hífen a seguir a BEM e MAL:
MAL
.   Apenas antes de vogal ou h
Ex.: mal-humorado e mal-educado.
BEM
. Antes de vogal ou h
Ex.: bem-humorado e bem-educado.
. E quando há unidade semântica.
Ex.: bem-criado, bem-comportado, bem-disposto, bem-feito, bem-intencionado, bem-mandado, bem-parecido, bem-nascido, bem-sucedido, bem-vindo, bem-visto, etc.


SUPERDICA:
Com bem, use sempre hífen
com mal apenas antes de vogal ou h!


Desejo a todos um feliz domingo de Páscoa!
ProfAP

março 20, 2018

Num manto feito de frio, chegou a primavera...

Ao cair da noite na horta, uma ameixeira vestiu-se a rigor para a nova estação. Lá mais para o verão, o branco perfumado das flores dará lugar ao vermelho suculento dos frutos...

Haiku dedicado à primavera:
蝶鳥の浮つき立つや花の雲
(chō tori no / uwatsuki tatsu ya / hana no kumo)

Matsuo Bashô (1644-1694)

Borboletas e aves
agitam o voo:
nuvem de flores.
Nota: No século XVII, no Japão, a primavera começava a meio de fevereiro, data do início do novo ano. A cada 2-3 anos, a data era ajustada, podendo recuar ou avançar dois a três dias, em função da primeira lua.

Abraço e que a primavera vos traga o principal bem de primeira necessidade: A ALEGRIA!

ProfAP



março 11, 2018

A tempestade chama-se "Féliks" ou "Félis"?


O mau tempo em Portugal marca presença na abertura de todos os serviços noticiosos. É ouvir os jornalistas a falar, de forma unânime, dos efeitos da tempestade “Féliks”.
A pronúncia de palavras como ónix, tórax, clímax e córtex parece dar-lhes razão, mas, na vida como na língua, nem tudo o que parece é…
Diz o Ciberdúvidas que a regra geral é que as palavras portuguesas terminadas em x conservem a pronúncia latina “ks” (como nos exemplos que vimos no parágrafo anterior), por terem vindo diretamente do latim (sem um processo evolutivo) e terem entrado no português no século XVI e seguintes.
Já cóccis e cálix (grafia antiga), com as pronúncias “cóccis” e “cális”, entraram na língua portuguesa antes do século XVI, havendo registos escritos, no século XIII, com a terminação s.
E Félix?
Félix entrou no português ainda na fase de formação da língua e há registos, no século XI, com a grafia Felici e Felice, com a pronuncia “Félis”, que se manteve mesmo quando se reintroduziu a grafia Félix.

RESPOSTA:
.
A tempestade é, sem dúvida, “Félis”!
.
Obs.: De uma forma simplista, podemos dizer que Félix tem uma grafia clássica e uma pronúncia popular.
Hélder Guégués, na obra Em português se faz favor (2015, editora Guerra e Paz), tem a mesma opinião: "Aproveite-se para lembrar que este nome se pronuncia Félis, como Fénix se pronuncia Fénis. Significativamente, a colecção poética do século XVII até apareceu intitulada A Fénis Renascida."

Notas:
1. Félix significa “feliz, sortudo” e o adjetivo feliz vem do latim felice.
2. Formado a partir do latim Felix, temos, com o mesmo sentido, Felício e também Feliciano (que entra no português apenas no século XVII). 
In https://www.dicionariodenomesproprios.com.br/felicio/

Abraço e feliz final de domingo.
ProfAP

fevereiro 14, 2018

AMO-TE ou TE AMO?


Dizem as más-línguas (mas também as boas) que o amor é coisa complicada. Como vamos ver, exprimi-lo também tem os seus quês.
Quanto ao dilema “Amo-te” ou “Te amo”, a resposta, longe de ser sim ou não, é depende…
A. 
AMO-TE
1. Na afirmativa, quando é uma frase ou a inicia:
.AMO-TE!
.AMO-TE mais do que a mim a próprio.
.Então, olhou para ele e disse-lhe com emoção: AMO-TE!
B. 
TE AMO
1. Na negativa:
Não TE AMO!
2. Quando não inicia a frase, sobretudo depois de QUE:
.É claro que TE AMO muito!
.Podes ter a certeza de que TE AMO desde o dia em que te vi.
.Se soubesses realmente como TE AMO, terias mais confiança em mim.
Mas: No Brasil, a letra e a música são outras. É sempre TE AMO (“Tche amo”)!

É bom não esquecer: hoje, mas também ontem e sempre, “é urgente o amor”! (Eugénio de Andrade)
Abraço.
ProfAP
Imagem encontrada AQUI.

janeiro 28, 2018

A despedida - António Correia de Oliveira


Há quase 50 anos, numa aula de Português, tive um dos primeiros sucessos como comunicador. Um dia, a professora (figura muito alta, austera, antipática, e sempre sarcástica, a quem chamávamos, entre nós, "o escadote") informou-nos de que, na aula seguinte, teríamos de falar para toda a turma durante um a dois minutos sobre um tema à nossa escolha, coisa rara para a época, uma vez que quem falava sempre era o professor. 
Embora tivesse medo da senhora, escolhi, como estratégia de sobrevivência, um poema do manual ("A despedida", de António Correia de Oliveira) e, depois de um treino intensivo diante do espelho do guarda-fatos, memorizei-o.
No dia da provação, enchi os pulmões e recitei o texto (uma declaração de amor), tendo como destinatário secreto a Maria Alfredo, uma colega de turma com sardas lindas por quem estava perdido de amores. E correu bem, não fizesse o amor milagres! A professora saiu-se com algo do tipo: "Quem havia de dizer! Uma mosca morta que fez alguma coisa de jeito!" Descontei a metáfora da "mosca morta" e fui-me sentar satisfeito.
Perdi "A despedia" de vista e, nos últimos 20 anos, fiz várias tentativas para a reencontrar, sobretudo na internet, pois mantive na memória a maior parte do texto.
Ontem, lembrei-me de voltar às pesquisas e, com surpresa, encontrei-o no Instagram de vistosa atriz brasileira (Isis Valverde, na imagem acima apresentada), que não conhecia. A jovem transcreve o poema da minha infância/juventude, mas não identifica o autor, o que levou os leitores a atribuir-lhe a autoria...
Seja como for, o importante é que posso partilhar um das mais bonitos e simples poemas de amor que conheço:
A Despedida

Três modos de despedida
Tem o meu bem para mim:
«Até logo», «até à vista»
Ou «adeus» – É sempre assim.

«Adeus» é lindo, mas triste;
«Adeus» … A Deus entregamos
Nossos destinos: partimos,
Mal sabendo se voltamos.

«Até logo» é já mais doce;
Tem distância e ausência, é certo;
Mas não é nem ano e dia,
Nem tão-pouco algum deserto.

Vale mais «até à vista»,
Do que «até logo» ou «adeus»;
«À vista» lembra voltando,
Meus olhos fitos nos teus.

Três modos de despedida
Tem, assim, o meu Amor;
Antes não tivesse tantos!
Nem um só… Fora melhor.

António Correia de Oliveira (1879-1960): 
Com extensa obra publicada, tornou-se um dos poetas do Estado Novo, com elevado número de textos escolhidos para os livros únicos de língua portuguesa do ensino primário e secundário. 
Foi nomeado para o Prémio Nobel da Literatura, pela primeira vez em 1933, tendo sido nomeado num total de quinze vezes em nove anos.
(In https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Correia_de_Oliveira)

Abraço.
ProfAntónio

julho 18, 2017

2 000 000 de visitantes!


Hoje mesmo, este blogue, dedicado, com muito gosto e empenho, à reflexão sobre questões da língua portuguesa, atingiu um número mágico de entradas: 2 000 000!

Aqui fica o top 10 do blogue:
1. Brasil
2. Portugal
3. Estados Unidos
4. Angola
5. Reino Unido
6. Moçambique
7. França
8. Espanha
9. Alemanha
10. Japão

Obrigado pela confiança e um grande abraço para todos, especialmente aos amigos brasileiros (68% do total de visitantes).
ProfAP

julho 04, 2017

os media, os média ou os mídia?

A.   Sempre escrevi e ensinei os media, pronunciado com o “e” aberto, como se lá houvesse um acento agudo.
B.   Vários dicionários registam as formas média e media.
C. Os nossos irmãos brasileiros, com sentido prático, criaram os mídia. Nos dicionários de português do Brasil, também encontrei media, sempre sem acento, mas tenho a perceção de que o termo que costumam utilizar é mesmo mídia.

D.   CONCLUSÕES:
1. Não há fundamento para o uso, em Portugal, de mídia, uma vez que é uma palavra confinada ao Brasil.
2. Considerando a diversidade de perspetivas das fontes, parece-me que tanto média como media são opções corretas. Continuo a preferir media, como o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, que não regista média, ou o Ciberdúvidas. Transcrevo, com a devida vénia, um extrato de uma resposta dada a um consulente:
Mesmo quem diga media, acentuando o e e com valor de plural, não pode usar o acento gráfico, porque está a usar um plural neutro latino, media, cujo singular é medĭu-, «meio». A pronúncia “mídia” é a imitação da que lhe dão os ingleses.” F. V. P. da Fonseca:: 15/06/2007
Revisão da matéria:
Portugal: media e o não consensual média
Brasil: mídia
Bom resto de domingo!
ProfAP
P.s.: Para informações com mais detalhes sobre este assunto, clique AQUI.